ALEITAMENTO MATERNO E A SUA RELAÇÃO COM A FONOAUDIOLOGIA



      Nesta primeira semana de agosto temos a semana mundial do aleitamento materno, coordenado no Brasil pelo Ministério da Saúde. Neste ano o tema abordado será: “o trabalho conjunto para o bem comum”.
      A alimentação é função vital em qualquer idade e em especial para o recém-nascido. A correta alimentação do bebê propicia o crescimento físico, o desenvolvimento neuro-psicomotor e a aquisição da resistência imunológica. Assim sendo, o ato de alimentar pode ser considerado como um dos mecanismos iniciais do desenvolvimento da comunicação e afetividade entre mãe e filho.
     O aleitamento materno é considerado o mais natural e desejável método de alimentação infantil, no que se refere a diversos aspectos sendo eles nutricionais, fisiológicos e psicológicos.
Dentre os vários benefícios do aleitamento materno cabe salientar a importância da amamentação no seio para o desenvolvimento da comunicação. Ao sugar o seio, o bebê desenvolve e fortalece a língua, os lábios e as bochechas. Isso poderá evitar problemas de fala, alimentação e respiração. Além disso, favorece o contato entre a mãe e o bebê, facilitando as trocas comunicativas e, dessa forma, estimulando a linguagem.
     A amamentação é uma função humana básica que define o desenvolvimento dos ossos da face, especialmente a mandíbula. Um mal posicionamento da criança nesta fase poderá resultar em sintomas como a respiração bucal ou um crescimento ósseo inadequado.
     A sucção irá desenvolver os músculos da face e promover um crescimento harmonioso de todas as partes envolvidas. Assim, durante a sucção todas as estruturas orais do recém-nascido se desenvolvem e fortalecem. No que ser refere aos aspectos nutricionais o leite materno possui cerca de cento e sessenta substâncias representadas por proteínas, gorduras, carboidratos e células.
     Percebe-se a grande importância do ato de amamentar, não somente do ponto de vista nutricional e econômico, mas igualmente ou até principalmente do ponto de vista interacional. Amamentar é doar amor. O calor do corpo da mãe e do seu leite substituem o calor placentário e o mamilo, antes o cordão umbilical, mantém a relação mãe/filho que iniciou no útero. A amamentação ao seio deve ser entendida também como uma oportunidade que a mulher tem, desde as primeiras horas de vida de seu bebê, depois do parto, de estabelecer uma integração total, física e psicológica, com seu filho, de modo a favorecer a instauração de uma relação específica e durável no tempo.
     O recém-nascido tem necessidade dessa relação. Durante toda a gravidez, o feto havia seguido os ritmos da mãe e compartilhado com ela todas as experiências pelas quais ela passava. O nascimento deu fim a tudo isso. Agora, então, o recém-nascido deve se reorientar, reencontrando os seus ritmos biológicos. Através desse contato entre mãe e bebê, distúrbios emocionais e/ou de conduta poderão ser prevenidos, pois o bebê ao ser aleitado no seio sente-se amado, incluído e reconhecido pela mãe e sociedade.
     Cada aspecto físico do ato de amamentar há um importante componente emocional. Assim ocorre com o contato entre o mamilo da mãe e a boca da criança, que é fonte de prazer independente da necessidade de absorção do alimento; assim ocorre com os eventuais estímulos auditivos provenientes da mãe que fala com o filho; também com os estímulos visuais possibilitados pela posição frontal (face a face), bem como com os estímulos olfativos e térmicos propiciados pela quente e perfumada pele do seio. Assim, durante a amamentação cria-se um fluxo de estímulos extremamente variados, em duas direções: da mãe para criança e desta para a mãe. Por outro lado, a mulher se vê tomada pelo desejo de explorar o recém-nascido, tocá-lo, olhá-lo, dirigir-se a ele com voz suave, tê-lo próximo de si. Nenhuma criança fica passiva diante do comportamento materno. O recém-nascido, por exemplo, se acalma quando é tomado ao colo, por efeito do calor do corpo do adulto e da tranquilizante e ritmada batida do coração.
      Desse modo, mãe e filho tem essas potencialidades, nada mais natural e desejável que seja precoce o contato entre os dois. A amamentação, como um vínculo afetivo propicia estímulos que surgem entre ambos os indivíduos, alguns intencionais (como afagos e sussurros da mãe) e outros acidentais, mas não menos importantes (como contato físico e o som da batida do coração materno).
     É gratificante para a mãe ou qualquer outra pessoa/profissional responsável pelo recém-nascido observar que o bebê consegue ser alimentado sem esforço. A dificuldade inicial no processo de alimentação, se não for bem trabalhada, pode se tornar bastante abrangente, prejudicando todo o desenvolvimento da relação mãe-bebê e, com isso, o desenvolvimento global deste.
     Todavia, infelizmente, existem fatores sociais e orgânicos que podem impossibili­tar o aleitamento materno. É importante que, assim como acontece na amamentação natural, o bebê alimentado por mamadeiras também experimente o contato íntimo de carinho com sua mãe, através do toque, do olhar e de carícia. Durante estes momentos o bebê deve estar bem acomodado ao colo da mãe, quase sentado, sentindo sua proteção e o calor do seu corpo.
     Além disso, quando isso ocorre, é muito importante que a mãe seja orientada na escolha do tipo de mamadeira com que irá alimentar seu filho. O que acontece muitas vezes é que, por total falta de informação, as mães acabam facilitando o processo de sucção, não permitindo que o bebê realize todo o "esforço" necessário para o correto desenvolvimento de suas estruturas orais. Quando o bebê tiver de ser alimentado por mamadeira deverá fazê-lo de modo que possa, de forma similar, continuar desenvolvendo essas estruturas musculares e ósseas da face.
     Há no mercado (farmácias e drogarias, lojas de produtos infantis etc.) dois tipos de bico para mamadeira, um convencional e outro ortodôntico. O tipo de bico para mamadeira que permite ao bebê realizar durante a mamada movimentos semelhantes ao do seio materno é o ortodôntico. Este bico é anatômico, moldando-se de forma muito semelhante ao mamilo da mãe quando está dentro da boca da criança.
     Assim sendo, evita deformidades na boca do bebê, como por exemplo: aprofundar o palato duro e projetar os dentes superiores para frente. Este bico já vem com furos de tamanhos adequados para passagem do leite, de líquidos ralos e de líquidos consistentes não devendo ser aumentado. Existem diferentes tamanhos de bico ortodôntico. O importante é que os pais adquiram os bicos ortodônticos do tamanho correto para a idade do bebê. Quanto ao material, os bicos de silicone apresentam uma durabilidade maior. Vale ressaltar que os pais devem, frequentemente, trocar os bicos, pois estes podem, com o uso constante, se deformar, perdendo a forma anatômica.
 
Matéria elaborada pela Fonoaudióloga da PróAudi, Mara Carnetti Malheiros, CRFa 7 7763.
 
Referências bibliográficas:

Furkim, A. M. & Santini, C. S. Disfagias orofaríngeas. Carapicuíba, SP: Pró-Fono, 1999.
Salcedo, P. H. T. Trabalho fonoaudiológico específico em berçário com estimulação sensório-motor-oral. In: OLIVEIRA, S. T. Fonoaudiologia hospitalar. São Paulo: Lovise, 2003.
Junqueira, P. Amamentação, hábitos orais e mastigação: orientações, cuidados e dicas. 2a ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2000. 
Tanigute, C. C. Desenvolvimento das funções estomatognáticas. In: Marchesan, I. Q. Fundamentos em Fonoaudiologia: aspectos clínicos da motricidade oral, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. 
Höher, F. P. Estimulação Sensório-Motora Oral e o Desempenho Nutricional de Recém-Nascidos Pré-Termo. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS. 2005.
Carnetti, M. G. Os Efeitos da Intervenção Fonoaudiológica Sensório-Motora Oral Sobre d Sucção Não-Nutritiva dm Recém-Nascidos Pré-Termo. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS. 2005.