Otites em crianças com fissura labiopalatina



Otites em crianças com fissura labiopalatina
 
          As Fissuras Labiopalatinas (FLP) congênitas desenvolvem-se durante o período embrionário e o início do período fetal, sendo representadas, clinicamente, pela ausência do fechamento do lábio, palato (“céu da boca”) ou ambos. Estima-se que para cada 1000 indivíduos nascidos, um seja portador de algum tipo de FLP.
          A incidência de problemas auditivos em crianças com deformidade de lábio e palato é muito alta. A quase universalidade da otite média com efusão entre pacientes lactentes com fissura palatina foi descrita por diversos autores. Os estudos evidenciaram 97% de prevalência desta alteração em crianças de 2 meses a 2 anos de idade com a fissura. 
        A Otite Média (OM) nessas crianças é muito comum, pois elas apresentam problemas de ventilação da orelha média. A tuba auditiva é um conduto que comunica a cavidade timpânica com a nasofaringe. Durante a maior parte do tempo a tuba permanece fechada, e sua principal função é equilibrar a pressão do ar na orelha média com a pressão atmosférica. Também tem como função a drenagem das secreções produzidas na orelha média. O músculo tensor do véu palatino é responsável pela abertura da tuba auditiva e realiza esse movimento abaixando ligeiramente a porção anterior do véu durante a deglutição. Para a ocorrência efetiva desse mecanismo, a integridade do palato e das estruturas que o compõem é essencial.
          Sendo assim, a principal razão para a ocorrência da OM em crianças com FLP é devido a uma falha no mecanismo de abertura da tuba, ou seja, pela ausência do palato, o músculo tensor do véu palatino não consegue exercer sua função.
          Os primeiros anos de vida são considerados primordiais para o desenvolvimento da linguagem e é por meio da audição que a criança entra em contato com o mundo sonoro e com as estruturas da língua. Assim, a integridade anatomofisiológica do sistema auditivo, a maturação das vias auditivas e a estimulação sonora adequadas são essenciais à aquisição e desenvolvimento da linguagem oral. Desta forma, a fim de detectar possíveis alterações auditivas, a criança portadora de FLP, deve ser submetida à avaliação audiológica precocemente, pois a presença de secreção na orelha média ou de perfuração da membrana do tímpano acarreta em dificuldades na transmissão do som. O caráter oscilante, característico da OM recorrente, leva a uma flutuação na detecção dos sons e essa situação acarreta falta de consistência de estimulação auditiva, dificuldade de integração binaural, além de distorção da mensagem recebida, o que prejudica o desenvolvimento da audição e do processamento auditivo e, consequentemente, da fala e linguagem.
      Portanto, a criança com fissura labiopalatina deve estar em constante acompanhamento otorrinolaringológico e fonoaudiológico a fim de diagnosticar e tratar precocemente as possíveis alterações auditivas. Uma via auditiva perfeita é fundamental para a aquisição da linguagem falada.

          Texto elaborado pela Fonoaudióloga da PróAudi de Passo Fundo/RS, Ana Paula Bettinelli.
 
REFEÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SANTOS, Francine Raquel dos; PIAZENTIN-PENNA, Silvia Helena Alvarez; BRANDÃO, Giovana Rinaldi. Avaliação audiológica pré-cirurgia otológica de indivíduos com fissura labiopalatina operada. 2009, Rev. CEFAC, São Paulo.
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