Apraxia de Fala na Infância: o que é e quais suas principais características?



A fala é o canal que viabiliza e possibilita a comunicação oral. Trata-se de um ato motor complexo controlado pelo sistema nervoso central e adquirido nos primeiros anos de vida das crianças.

A aquisição da fala ocorre gradualmente, respeitando a maturação neurológica. Inicialmente, os movimentos realizados pelos lábios, língua e mandíbula (articuladores), são indiferenciados. Com o passar do tempo e a exposição da criança a linguagem, ocorrem refinamentos nos movimentos dessas estruturas, transformando-os em movimentos cada vez mais precisos e diferenciados, de modo que com o avançar do desenvolvimento a criança vai alcançando os níveis mais elevados de coordenação e precisão articulatória, extremamente importantes para a efetividade da comunicação oral.

Em algumas crianças, esse refinamento dos movimentos que vão ser usados durante a fala pode não acorrer, o que gera uma fala com comprometimento dos gestos articulatórios, o que caracteriza uma dificuldade práxica. A apraxia de fala na infância pode ser definida como a dificuldade em programar voluntariamente o gesto articulatório na ausência de déficits neurológicos ou musculares.

Na apraxia de fala mesmo que a criança saiba o que deseja falar, o mesmo apresenta dificuldades para programar neurologicamente os movimentos que precisa realizar e a sequência desses movimentos para produzir sons, sílabas e palavras. Secundárias as alterações encontradas na articulação, na apraxia de fala na infância também podem ser encontradas alterações na prosódia, ritmo, melodia e entonação da fala.

Segundo estudos, esta dificuldade é mais prevalente no sexo masculino, porém quando acomete o sexo feminino as alterações podem ser mais severas. Crianças com a apraxia de fala, normalmente possuem muitos erros durante a articulação, caracterizando uma fala de difícil compreensão ou ainda ininteligível. Os erros cometidos por essas crianças assemelham-se aos erros cometidos por adultos após algum dano cerebral, seja por trauma ou outras causas. A principal diferença entre a apraxia de fala da infância e a apraxia de fala adquirida é que no quadro dos adultos há uma perda de função, de modo que nas crianças há prejuízo na aquisição da fala.

De acordo com a Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância as principais características encontradas na fala de crianças acometidas por essa dificuldade são:
  • Pobre repertório de vogais, erros na produção das vogais na fala;
  • Pobre repertório de consoantes durante a fala, incluindo as consideradas mais visíveis e fáceis de serem adquiridas, como P e M;
  • Variabilidade de erros e presença de erros incomuns na fala;
  • Os erros e a dificuldade aumentam com o aumento da quantidade de sílabas das palavras;
  • Dependendo do grau de severidade, a criança pode produzir o som, sílaba ou palavra-alvo em um contexto, mas é incapaz de produzir o mesmo com precisão em um contexto diferente;
  • Possuem mais di­ficuldade nas tarefas que precisam de controle voluntário, em comparação com as realizadas de forma automática;
  • Di­ficuldade nas tarefas de diadococinesia, ou seja, para alternar com precisão a repetição das mesmas sequências, como pa/pa/pa ou de sequências múltiplas, como pa/ta/ka;
  • Presença de alterações prosódicas, fala acelerada ou monótona, erros de ritmo e entonação, défi­cit na duração dos sons e pausas entre as sílabas;
  • Pode ser observado durante a fala “procura” ou “esforço” para realizar as posições articulatórias;
  • A criança demonstra que ­fica “perdida”, não sabe como movimentar a boca, possui intenção comunicativa, tenta falar mas não consegue;
  • Presença de uma grande discrepância entre a compreensão e a produção de fala (exemplo; entende o que lhe é falado, porém não consegue verbalizar sua resposta...)
Essa dificuldade na articulação da fala pode gerar atraso no desenvolvimento da linguagem e consequentemente no desenvolvimento global da criança, pois com o passar do tempo, outros domínios linguísticos podem ser prejudicados como, por exemplo, a aquisição da leitura e linguagem escrita.
Sendo assim, é de extrema importância que nos casos de atraso do desenvolvimento da linguagem e da fala, seja realizada avaliação com um Fonoaudiólogo.  Por ser o profissional especializado na comunicação humana, somente ele poderá realizar uma adequada investigação, buscando o diagnóstico diferencial, possibilitando assim um planejamento terapêutico adequado de reabilitação, que contemple todas as dificuldades da criança, auxiliando-a em seu desenvolvimento e comunicação, interação com os demais.  
 
 
 
REFERÊNCIAS:

ALMEIDA-VERDU, A.C.M.; GIACHETI, C.M.; LUCCHESI, F.D.M.; FREITAS, G.R.; DUTKA, J.C.R.; ROVARIS, J.A.; MARQUES, P.F. Apraxia de fala: efeitos do fortalecimento de relações verbais. Revista CEFAC, vol. 17, núm. 3, mai-jun, 2015, pp. 974-983.
 
SOUZA, T.N.U.; PAYÃO, L.M.C.; COSTA, R.C.C. Apraxia da fala na infância em foco: perspectivas teóricas e tendências atuais. Pró-Fono. Revista de Atualização Científica. 2009, jan-mar;21(1):75-80.
 
SOUZA, T. N. U.; PAYÃO, L.M.C. Apraxia de fala adquirida e desenvolvimental: semelhanças e diferenças. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2008;13(2):193-202.
 
PAYÃO, L. M. C.; LAVRA-PINTO, B.; WOLFF, C. L.; CARVALHO, Q. Características clínicas da apraxia de fala na infância: revisão de literatura. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 47, n. 1, p. 24-29, jan./mar. 2012.
 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE APRAXIA DE FALA NA INFÂNCIA, Acesso em: 15 de março de 2018 <http://apraxiabrasil.org/sobre-apraxia/>.